Publicado por: Ana | Julho 26, 2005

Driving

Saiu da letargia em que se encontrava e, subitamente, pegou nas chaves do carro e no telemóvel.
Fechou a porta de casa como quem vai voltar no minuto seguinte e, sem olhar para trás, sentou-se ao volante. As bombas, ao pé de casa, encontravam-se vazias àquela hora e atestou o carro rapidamente.

Senta-se ao volante, põe o cinto e ajusta o corpo ao banco enquanto direcciona o espelho retrovisor. Suspirou. Conduzir costumava acalmá-la, reduzir-lhe a ansiedade que, de quando em vez, se instalava dentro de si. Mas hoje sabia que não ia ser tarefa fácil. Os olhos, ainda inchados do choro, estavam escondidos por detrás dos óculos escuros, apesar de ser quase noite. Anoitece cedo no Inverno e um arrepio de frio trespassou-a, levando-a a ligar o aquecimento. Novo suspiro, enquanto roda a chave na ignição e avança lentamente para a estrada. Não faz a menor ideia do percurso que vai fazer. O carro, mais uma vez, vai ter vida própria.

Um turbilhão de imagens percorre-lhe o cérebro à medida que a paisagem da pequena cidade dá lugar à auto-estrada. Sorri quando se lembra dos momentos bons, das cumplicidades, das juras de amor eterno. Estremece quando ainda sente o cheiro dele; o toque dele; o olhar dele, meigo, que se iluminava quando a via chegar.

As lágrimas teimam em cair de novo, toldando-lhe a visão, quando se lembra do telefonema da tarde: _ Não, não quero que venhas. Preciso de estar sozinho para clarificar as ideias. Ainda gosto de ti, mas é por tua causa que estou assim, preciso de um tempo, de espaço para clarificar as ideias. Um dia destes telefono-te.

Juras de amor eterno? Claro! É eterno enquanto dura. Culpabiliza-se mais uma vez sem descobrir, no entanto, onde falhou e, perdida nos pensamentos o carro continua a rodar, sem ela perceber, para a Grande Cidade. Percebe que, não há necessariamente culpa. A chama por vezes extingue-se por motivos tão subtis que nunca se chegam a tornar conscientes.

Encosta o carro e chora. As suas palavras” Ainda gosto de ti ” fazem cada vez mais eco dentro do cérebro. Enxuga as lágrimas quando, subitamente, vê onde o instinto a levou. Está na Grande Cidade. Aquelas avenidas que, à custa de as percorrer, se tornaram familiares, estão agora iluminadas enquanto o trânsito, pouco devido à hora, abranda lá ao fundo, sem parar. Avança devagarinho, sem saber o que se passa, mas curiosa e ao mesmo tempo contente por saber que não está sozinha nas ruas. A Grande Cidade tem sempre pessoas a circular. Anónimos, talvez criminosos mas, seguramente, no meio daquelas pessoas, algumas estariam a caminho de casa onde eram esperados.

Casa? Era isso, CASA. Sentia-se em Casa ali, e não na pequena cidade de onde tinha partido há poucas horas. Devagar, foi-se aproximando do local onde os carros quase paravam e descobre, à medida que avança, uma amálgama de luzes. É Natal e nem se tinha apercebido! Uma gigantesca árvore de Natal, multicolor, ilumina a praceta roubando a quem passava um rasgado sorriso.

Estaciona o carro e sai, percebendo que a árvore está colocada na praça onde ele vive. Pega no telemóvel e, sustendo a respiração, marca o número dele.

Ao primeiro toque vira-se para trás e deixa que as luzes da árvore lhe batam em cheio no rosto, enquanto formula o desejo do seu presente de Natal: que ele atenda.


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