Publicado por: Ana | Julho 7, 2005

Encontros 2

Meteu as mãos no cabelo num gesto que, quem a conhecia, sabia de cansaço e stress. Recostou-se na cadeira tentando saborear aquele final de dia, princípio de fim-de-semana, em que a suave luz do pôr do sol lhe invadia o escritório pela janela envidraçada. Estava sozinha, todos os colegas tinham já partido num frenesim próprio de quem tem vontade de chegar a casa, ao restaurante, onde quer que fosse.
Sabia-lhe bem o silêncio e deixou-se ficar mais um pouco, Afinal, os seus planos de fim de semana passavam apenas por eventuais idas à esplanada da praia com uma das suas leituras de momento ou um jornal, filmes em casa e dormir.
Tirou os sapatos e pôs as pernas em cima da secretária, massajando-as lentamente. Aqueles saltos altos davam cabo dela e sentiu um alívio imediato.

Acordou já a noite se tinha instalado; o escritório, completamente às escuras, assumia contornos e sombras assustadoras para quem não conhecesse bem o terreno. Riu-se, imaginando rocambolescas histórias de raptos e assaltos em que seria salva por um herói que, assim que a visse, se apaixonaria imediatamente.

Um ruído estranho no escritório do lado fê-la sobressaltar-se. Afinal, não estava sozinha! Algum colega que se tinha esquecido de algo, claro… Acendeu a luz e calçou-se sem pressas, mas algo a fez parar; o ruído, furtivo, era de alguém que não queria ser ouvido e Mariana sentiu-se assustada.Parou e, no compartimento do lado, o ruído interrompeu-se. Quem quer que fosse, sabia que ela estava ali…
………………………………………………………………..
“Doentes, doentes e mais doentes”, pensou Pedro. Devia ter seguido o conselho do pai, médico também, e seguir uma profissão em que não houvesse bancos, nem noites, nem tanto sofrimento à sua volta; para sofrimento bastava o seu, interior, de memórias felizes mas que não passavam disso mesmo: memórias.
“Acorda, pá, estás a dormir?-perguntou o João. “Ultimamente andas sempre na lua.”
Pedro sorriu e respondeu à chamada que , insistente, se fazia ouvir no intercomunicador do hospital.
A voz da amiga com quem tinha saído duas vezes na semana fez com que franzisse as sobrancelhas, num gesto de desagrado. Afinal, se tinha desligado o telemóvel era porque não queria ser incomodado, muito menos por tipas que se insinuam a toda a hora. Despachou-a em três tempos, abruptamente. A última coisa que ouviu foi algo como ” Não é possível ser tão bruto hoje e tão meio há três dias…”
Desligou-lhe o telefone na cara e foi tomar um café, não pensando mais nela. Era só mais uma e, afinal, tinha conhecido na véspera a Rosa, enquanto esperava pela roupa na lavandaria. Era sexta- feira, fim-de-semana sem bancos , o primeiro de há meses. Ligou o telemóvel e tirou da carteira o papel escrito à pressa que ela, discretamente, lhe tinha metido na mão. 96……

( Continua…)


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