Publicado por: Ana | Janeiro 31, 2005

Transparências

É um arrumador de carros em Lisboa, como tantos outros. Toxicómano, como a maioria. Os olhos dele não mentem. Está sempre high.

Tenho parado, por motivos que não vêm ao caso, com alguma frequência na zona que ele “domina” apesar de não ser, nem de perto nem de longe, cliente habitual. Mas, não sei bem porquê, o homem começou a reconhecer-me após o segundo ou terceiro estacionamento.

A primeira vez, brindou-me com um ” Olá, por aqui hoje?“, ao que respondi com um aceno tímido e um sorriso.

Mas um sábado destes disse-me, quando lhe dei a habitual moeda: “Boa tarde… Ena, hoje vai gira!!

Eu, cheia de pressa, já atrasada e em passo de corrida, ainda me virei para trás e , depois de uma gargalhada, respondi: Obrigada, até logo!

Quando voltei, horas e acontecimentos depois, passei por ele em silêncio e sorri. Ele olhou-me e disse-me: ” Vai triste? Não esteja triste. É fim de semana, sábado e você ainda vai namorar hoje…”

_ Quem lhe disse que eu estou triste?, perguntei, sempre a andar.

_”Os seus olhos”, respondeu.

Tornei a passar lá, este sábado. A pé, que o carro tinha ficado noutro local perto. Lá estava ele.

_”Então, o carro? Já me trocou por outro?, perguntou a rir.

Ri-me também e menti: _ Não, hoje vim de metro.

_Ah, ’tá bem. Olhe… sabe? A tristeza já mal se nota… Continue assim.







Raio do homem…. ou raio de mim, que não me sabia tão transparente.


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