Publicado por: Ana | Dezembro 15, 2004

Morte

Domingo, 8:30 da manhã. O telefone dá sinal de SMS recebida e acordo sobressaltada. Sorrio, ainda ensonada, enquanto me lembro da mensagem recebida por volta da uma da manhã ( are you awake?) seguida de um telefonema de horas esquecidas sem sono. Mas esta mensagem era de pessoa diferente. E de teor diferente.

“A minha mãe morreu. “ A morte agora também se anuncia assim, por SMS. Não me parece mal; há coisas que não queremos ouvir,quanto mais dizê-las, ouvir a nossa própria voz pronunciá-las. Sentei-me na cama, estremunhada. Instintivamente, marquei o número de volta para falar com ela. Ou antes, para a tentar ouvir falar. “Sim…. de noite, acabaram de ligar ao meu pai, do hospital…. vamos para lá agora.” Eu sou prática nestas coisas. Detesto formalidades sociais, tipo os meus sentimentos”.

Precisas de alguma coisa_ perguntei? Eu vou buscar o miúdo e ele fica aqui em casa até amanhã, com os meus.



Se para se ser católico basta ter sido baptizado, então sou-o. Mas durante anos duvidei da verosimilhança de tudo aquilo num agnosticismo tolerante, tendo caminhado recentemente para um ateísmo convicto. Não me importo, no entanto, de estar presente em cerimónias de carácter religioso se isso for factor sine qua non para acompanhar pessoas de quem gosto em coisas importantes para elas.

Não vou sequer falar aqui dos pormenores do tempo que estive no velório, durante a tarde. Resumem-se a uma capela sobrelotada de gente a rezar o terço.

No dia seguinte, lá entrei na igreja também cheia de gente para a missa do funeral. A minha amiga já me tinha procurado com os olhos, pedindo-me para me sentar ao pé dela. E fui.

Entraram dois padres. Bonito_pensei_ isto vai demorar horas. E, de repente, duas das mulheres que eu tinha visto no velório na noite anterior começam a cantar. Muito mal, por sinal. E estavam perto perto de mim, uma de cada lado, como uma estereofonia estragada.

A pouco e pouco, toda a igreja começou a acompanhar criando-se um coro espontâneo. Quase todos cantavam; eu nem a letra sabia… Fixei um trecho, porque me marcou:

” Ó Morte, triste vencedora, onde está agora, a tua vitória? Ressuscitou, ressuscitou, aleluia , ressuscitou…”



Olhei em volta e percebi que aquela gente acreditava mesmo naquilo que cantava. E, de repente, tive inveja deles, que acreditavam que aquilo era apenas um recomeço. De pensar que, para mim, tudo acabava ali naquele caixão.

E apeteceu-me viver muitos, muitos mais anos. Voltar atrás para fazer muitas coisas de forma diferente. Aproveitar todos os bocadinhos de Vida a que tenho direito. Da minha Vida. Para poder, um dia, morrer com um sorriso nos lábios.




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