Publicado por: Ana | Novembro 25, 2004

A estação

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A noite, cerrada, não deixava sequer ver as estrelas . Previa-se longa, como todas as noites que sabemos ir passar em claro. Estranho isto, de chamar ” passar em claro” a algo tão escuro como a noite.

E passar a noite numa estação de comboios não era, de todo, algo que lhe agradasse. Mas tinha perdido o último e agora, só perto das 6 da manhã haveria outro que a levasse dali para fora.

Estava nervosa mas, pelo menos ali, na sala de espera, o frio não era muito. Abotoou o casaco e apertou a carteira junto ao peito. O pouco dinheiro que lhe restava estava ali todo, dava à justa para o bilhete e um qualquer pequeno almoço frugal.

Respirou o ar quente e húmido , a cheirar a gasóleo e sentiu-se suja. Por fora e por dentro.

Reviu mentalmente os últimos dias, as últimas horas, a discussão definitiva, o sair de casa intempestivamente apenas com a roupa que tinha no corpo. Afinal, precisava de pensar, de respirar e tinha acabado ali depois de ter deambulado pela cidade, a pé. Até a cidade a oprimia; pequena, toda a gente sabia quem ela era, não podia caminhar de forma anónima para pôr os pensamentos em ordem, tomar as decisões correctas. Acabou ali, naquele banco de estação, sozinha, onde até os comboios se recusavam a colaborar. Ou estaria apenas a começar? Uma coisa era certa: não voltaria atrás.

Sabia que seria censurada, criticada, caluniada, ofendida; o meio era propício; mesquinho, feito de mentalidades comezinhas, uma sociedade fechada numa pequena cidade de interior. Mas sabia que tinha que tomar aquela decisão. Afinal, apenas queria ser amada . Sentir que era importante, querida , desejada, ponto principal na vida dele. Não apenas o ponto de apoio nas horas difíceis, a bengala emocional dos momentos maus. Porque era da sua própria fragilidade que se tratava. Os seus sonhos. A sua vida. Havia demasiadas emoções em causa. Mas agora era tarde demais. Pelo menos para ele. Porque ela ia começar a gostar de si mesma.

Sentou-se no banco e sacudiu os cabelos com as mãos. Levantou-se. Afinal não esperaria pelo comboio. Ia a pé. Porque há caminhos que têm que se percorrer sentindo o chão que se pisa.


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