Publicado por: Ana | Novembro 21, 2004


Já com a chave na mão,subiu os três degraus que a separavam da porta. Pesada, de madeira escura, aspecto sólido. Como todo o restante edifício, parecia abandonada apesar de o tempo tinha sido meiga com ela. No entanto a chave rodou silenciosa e facilmente na fechadura, como se tivesse sido oleada de véspera.

O interruptor da luz não respondeu e a escuridão que grassava no hall manteve-se. Não se sentiu incomodada, o espaço era-lhe de tal maneira familiar que sabia conseguir mover-se nele tão facilmente como se estivesse bem iluminado.

Apesar de não entrar naquele espaço há muitos anos, o à vontade com que começou a percorrer os compridos corredores denotava que os conhecia bem e que levava um objectivo definido. O cheiro a pó entrava-lhe nas narinas de forma desagradável e, misturado com o frio que sentia , provocou-lhe um arrepio. Ou talvez fossem os grandes e pesados móveis que, tapados com lençóis brancos, davam uma visão fantasmagórica a todo o cenário.

Acelerou o passo e dirigiu-se ao seu objectivo. No pequeno quarto, abriu a janela como tantas vezes tinha feito , há muitos anos atrás. O sol jorrou, inundando a divisão de luz, fazendo com que ela piscasse os olhos, já habituados à escuridão.

Destapou a mobília lentamente, peça a peça, desnudando um quarto de menina com todos os brinquedos arrumados nos seus lugares como se a empregada tivesse acabado a limpeza diária. Apenas os lençóis brancos, em monte no chão, denunciavam a situação. Assim como um objecto que ela ainda não tinha tido coragem de destapar. Sentada na beira da cama, olhou-o e respirou fundo. Lentamente levantou-se, fechou os olhos e destapou-o. Viu a sua imagem reflectida no espelho em frente ao qual tantas vezes se tinha mirado. Sorriu.

Mas, de repente, todos os brinquedos em seu redor começaram a envelhecer; as bonecas encheram-se de rugas, os peluches perderam o toque macio, os livros viram-se manchados da humidade e do tempo. Toda a casa começou a ceder, a dar mostras súbitas dos anos de abandono sofridos. Os móveis rangiam, as paredes abriam brechas, o chão parecia ceder a qualquer momento.

Apenas ela permanecia imutável, a sorrir perante o espelho, como se nada se estivesse a passar ao seu redor. Percorreu o caminho até à saída devagar, sem demonstrar sequer medo de ser engolida por todo aquele animismo.

Fechou a porta , meteu a chave na fechadura e trancou-a.

E, naquele momento, toda a casa se desmoronou, enquanto ela seguia o seu caminho.


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