Publicado por: Ana | Novembro 14, 2004



Desligou o carro e tirou a chave da ignição.

Olhou para o relógio. Cerca de uma hora, pensou… boa média. A esta hora da manhã não há, de facto, muito trânsito e, apesar da noite em claro, só agora o cansaço começava a diminuir-lhe os reflexos.

Entrou no prédio e sentiu aquele cheiro familiar que só se sente depois de ter estado fora uns dias; cheiro a casa. Antes de abrir a porta, ligou o gás, na escada, como fazia sempre. Ansiava por um banho quente.

Quatro voltas à chave. Quatro trancas. Quatro seguranças.

Acendeu uma pequena luz de presença para poisar a bagagem.Não que precisasse, conhecia todos os cantos mesmo de olhos fechados. Depois, percorreu todas as divisões da casa , abrindo os estores bem até ao cimo para que a luz do sol jorrasse em todos os cantos, apesar do frio que se fazia sentir na rua. O click do ar condicionado assegurou-lhe que, dentro de poucos minutos, o ambiente seria certamente mais acolhedor.



Abriu as torneiras da banheira e, enquanto esperava que esta enchesse deitou-se em cima da cama, deixando que o ambiente a envolvesse como uma redoma invisível, um escudo protector. Sentia-se segura,em casa. Gostava da sensação de entrar em casa e ver os objectos, imutáveis, exactamente na mesma posição em que os tinha deixado. Tinha necessidade daquele momentos de absoluta solidão ,momentos só dela naquele lugar seguro, seu. Não a assustava viver sozinha. A tensão começou lentamente a desaparecer.


Despiu-se lentamente, em frente ao espelho; velho hábito. Sorriu, hoje um sorriso triste.



Deitou-se na banheira cheia de água quente e, à medida que a água lhe aquecia o corpo, começou a rever os momentos passados nas últimas horas. Lentamente, as lágrimas de raiva contidas misturaram-se com a água enquanto se lavava dos acontecimentos recentes. Não estava habituada a não controlar as situações e, estupidamente, tinha-se ido meter na boca do lobo. Não voltaria a acontecer, isso estava garantido.

Absorta nos pensamentos ,viu uma pequena aranha que passeava nos azulejos rentes à banheira. Não precisou de se mexer muito, sequer. Bastou tirar um pé da água e, com o dedo grande, esborrachou-a lentamente, sentindo-se enojada logo de seguida. Riu-se e mergulhou totalmente, até lhe faltar o ar.

E saiu da água de espírito novo, a cantar as time goes by


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