Publicado por: Ana | Julho 26, 2004

Crendices

Tenho uma dor de cabeça que não me larga desde ontem de manhã.

Como de costume, sou avessa a tomar medicamentos e cá me vou aguentando,entre queixumes e alívios momentâneos.

Hoje, com o calor que teima em não nos largar, a coisa agravou-se principalmente durante a tarde.

Na clínica, os meus doentes foram-se apercebendo que a minha boa disposição habitual não estava nos melhores dias e lá fui dizento o motivo, a uns e a outros.

Até que chegou a D. Ermelinda; esta querida senhora,  viúva e doente antiga por achaques diversos, passou já a fazer parte da nossa mobília há alguns anos, com intervalos regulares para fazer as termas  e para visitar a filha, que vive em França; alturas em que, miraculosamente, se sente melhorzinha (  tramóia pura, para que tenha da minha parte o aval para se ausentar).

Ora a D. Ermelinda,dizia eu, lá chegou com as costumeiras dores nas cruzes mas,por circunstâncias várias, só me viu depois do tratamento feito e quando já estava de saída. Perspicaz, disse logo:

_ A Terapeuta hoje não está bem. Tá doentinha?

_ É só uma dor de cabeça, D. Ermelinda_respondi. Não me larga desde ontem.

_ Ai, que isso é quebranto que lhe deram! Pode ser por lhe quererem bem ou mal. Quer que lho tire? Chego a casa e faço já a reza; daqui a nada fica boa.

_ A D. Ermelinda não vai levar a mal, mas eu não acredito muito nessas coisas. Deve ter sido sol que apanhei no sábado, na piscina. Com este calor…

Mas muito obrigada na mesma.

E lá foi ela nada convencida e eu, perdida de dores e impaciente, enfiei com dois Ben U Ron no estômago.

Meia hora depois a coisa começou a melhorar e eu já tinha esquecido a conversa anterior. Toca o telefone.

_ Terapeuta, a D. Ermelinda quer falar consigo_ diz a recepcionista.

Lá atendi, saboreando entre risos o que antevia que se ia seguir:

_Então, tá melhorzinha?_ pergunta ela do outro lado da linha.

Conhecendo a peça como conheço, respondi: Estou sim, senhora!

Triunfante, disse logo ela: _ Não me vai levar a mal, mas eu cheguei a casa e fiz a reza na mesma! É que vocês, doutores, sabem muito dos livros mas da vida sabemos nós, os antigos!

E como perante factos não há argumentos, respondi: muito obrigada, D. Ermelinda!!!

😉


Responses

  1. Tão querida!! não tu, a senhora, pois tá claro … heheh

    ;)***

  2. Pois é srª Drª. quais benurons quais quê. Olhe vou-lhe confessar uma coisa: rezo sempre antes de ir ao médico.

    PS. Estimo as suas melhoras.

  3. Poxa!

    Esta mocita escreve mesmo bem…

    Em quem se inspirará ela?

    As melhoras ó Drª Terapeuta 😉


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